12.8.07

Nous n'avons pas tout à fait perdu notre journée



La force

à Marcel Duchamp

Nous avons fait le bien comme ils ont fait le mal
Nous avons empêché d'écraser un aveugle
Un jeune automobiliste inexpérimenté
Premier point
Puis tendant une main avant tout secourable
Nous avons traversé le boulevard Péreire
Avec une maman de nourrissons chargée
Deuxième point
Nous avons salué tous les enterrements
Nous avons écrasé de mépris et d'insultes
Tous les godelureaux et les autres vauriens
Troisième point
Nous avons prodigué dans notre ardeur naïve
Des encouragements à tous les bons vieillards
Aux travailleurs aux enfants de l'école aux veuves
Quatrième point
Aux orphelins aux employés du métropolitain
Aux cireurs de bottines aux professionnels
De la parole aux petits télégraphistes
En un mot
Comme le brave empereur Trajan
On peut bien dire par ce joli soir lumineux
Que nous n'avons pas tout à fait perdu notre journée.

L. Aragon, 1924

10.8.07

The power of shame

Que é ter vergonha na cara?
Leonardo Boff
Alai Amlatina

Benjamin Franklin (1706-1790) foi editor, refinado intelectual, escritor, pensador, naturalista, inventor, educador e político. Propunha como projeto de vida um pragmatismo eclarecido, assentado sobre o trabalho, a ordem e a vida simples e parcimoniosa. Foi um dos pais fundadores da pátria norte-americana e participante decisivo na elaboração Constituição de 1776. Neste mesmo ano, foi enviado à França como embaixador. Frequentava os salões e era celebrado como sábio a ponto de o próprio Voltaire, velhinho de 84 anos, ir ao seu encontro na Academia Real. Certa tarde, encontrava-se no Café Procope em Saint-Germain-des-Près, quando irrompeu salão adentro um jovem advogado e revolucionário Georges Danton dizendo em voz alta para todos ouvirem:"O mundo não é senão injustiça e miséria. Onde estão as sancões?" E dirigindo-se a Franklin perguntou provocativamente:"Senhor Franklin, por detrás da Declaração de Independência norte-americana, não há justiça, nem uma força militar que imponha respeito". Franklin serenamente contestou: "Engano senhor Danton. Atrás da Declaração há um inestimável e perene poder: o poder da vergonha na cara (the power of shame)".

É a vergonha na cara que reprime os impulsos para a violação das leis e que freia a vontade de corrupção. Já para Aristóteles a vergonha e o rubor são indícios inequívocos da presença do sentimento ético. Quando faltam, tudo é possível. Foi a vergonha pública que obrigou Nixon renunciar à presidência. De tempos em tempos, vemos ministros e grandes executivos tendo que pedir imediata demissão por atos desavergonhados. No Japão chegam a suicidar-se por não aguentarem a vergonha pública. Ter vergonha na cara representa um limite intransponível. Violado, a sociedade despreza seu violador, pois não se pode conviver sem brio.

Que é ter vergonha na cara? O dicionário Aurelio assim define:"ter sentimento da própria dignidade; ter brio." É o que mais nos falta na política, nos portadores de poder público, em deputados, senadores, executivos e em outros tantos ladrões e corruptos de colarinho branco. Com a maior cara de pau e sem vergonhice negam crimes manifestos, mentem sem escrúpulos nos interrogatórios e mas entrevistas aos meios de comunicação. São pessoas que à força de fazer o ilícito e de se sentir impumes perderam qualquer senso da própria dignidade. Roubar do erário público, assaltar verbas destinadas até para a merenda escolar ou falsificar remédios não produz vergonha na cara. Crime é a bobeira de quem deixa sinais ou permite que seja pego com a boca na botija. Nem se importam, pois sabem que serão impunes, basta-lhes pagar bons advogados e fazer recursos sobre recursos até expirar o prazo. Parte da justiça foi montada para facilitar estes recursos e favorecer os sem vergonha com poder.

No transfundo de tudo está uma cultura que sempre negou dignidade aos índios, aos negros e aos pobres. Roubo-lhes seu valor ético porque a maioria guarda vergonha na cara e tem um mínimo de brio. Como me dizia um "catador de lixo" com o qual trabalhei cerca de 20 anos: "o que mais me dói é que tenho que perder a vergonha na cara e me sujeitar a viver do lixo. Mas não sou "catador", sou trabalhador que com o meu trabalho digno consigo alimentar minha família". Se nossos políticos desavergonhados tivessem a vergonha desse trabalhador, digna e dignificante seria a política de nosso pais.

16.7.07

O caminho das estrelas



Saí pela noite tomar uma cerveja em Santa Cristina. A essas horas é mais fácil aparcar. Passei por diante de um karaoke, uma discoteca e uma pastelaria. Quando cheguei onde uma das cafetarias mais velhas da vila decidi sentar-me. Lá um grupo de dez ou doze moços de entre vinte e trinta anos falavam animadamente em catalão. Tudo na sua conduta, na sua indumentaria, no seu jeito de expressar-se revelava naturalidade juvenil, mas também civilidade e um bocado de sofisticação urbana. Aguardavam a que ficasse livre uma mesa num restaurante próximo. A espera demorou ainda uns vinte minutos. Em todo esse tempo não pronunciaram nenhuma palavra em castelhano. Que maravilha!

Na cidade da Corunha ouvir a um grupo de jovens de parecidas índoles empregar o idioma do país é uma utopia. Seria mais fácil ouvi-los falar em alienígena. Ou ouvir falar galego em Roswell, na auto-estrada das estrelas. Nem quero saber que é o que se passa em outras cidades, como Vigo, onde o abandono da língua é ainda mais marcado entre os rapazes, segundo contam as estadísticas. Muitos galegos educados, cultos, inteligentes e refinados seguem a sentir vergonha de falar a nossa língua em certos contextos. Falam-na na intimidade, com os avós. Não temos conseguido descascar o idioma da sua pele mais amarga. Há que lhe tirar o cheiro a monte. Mas isso não é possível sem uma condição politica necessária: a toma de consciência colectiva e maioritária da própria identidade nacional.

Criei-me numa vila onde ninguém deixava de falar galego em nenhuma circunstancia. Não estou tão certo de que hoje ainda siga a ser assim. Exerci a docência em centros de aldeias onde todos os rapazes falavam galego com orgulho, sem excepções, com uma prosódia incrível do boa que era. E também tenho ensinado em vilas onde nenhum rapaz o falava. Nenhum! Minto, falava-o um, que era, minha jóia, objecto de escárnio. Quem não tem a sensação de estar fora de hora em certos contextos se falar galego? A quem não lhe tem sucedido que o miram raro se empregar a língua, como se não te entendessem, como se vestisses de mergulhador ou levasses um papagaio no ombro?

A norma culta do nosso idioma é a usada em Portugal: ortografia, ortofonia, morfologia e sintaxe, uso literário assentado, etc. Eis a estrela polar que nos pode ajudar a encontrar o caminho de saída a este labirinto, a mesma que guiou aos navegantes por todos os mares para levar esta antiga língua aldeã a todo canto do mundo.

14.7.07

Quase o mesmo

Uma universidade de Arizona acaba de publicar os resultados de uma investigação na que se certifica que homens e mulheres falam a mesma quantidade de palavras no dia, derrubando assim o mito de que elas batem papo muito mais do que eles: Varões e fêmeas proferem umas 16 mil vocábulos ao dia. O que não se esclarece em essa pesquisa é qual seja o sexo mais assisado em seu falar. Imagino que o “seny”, como dizem os catalães, está repartido a partes iguais entre os dois géneros. Acho improvável que um sexo se destaque sobre outro na forçosa quota de loucuras que aos humanos nos toca. Um estaria tentado de assegurar que o que singulariza aos seres humanos entre os animais é a capacidade de dizer e cometer desatinos.

9.7.07

Fragmento do "Quadern gris" de Pla

" Escoltar forma part de l'estratègia dels pobres. No vull pas dir que s'hagi d'escoltar tothom. S'ha d'escoltar qui convé. Això sí: s'ha d'escoltar bé o almenys causar la impressió que hom escolta bé. S'ha de produir la impressió d'adhesió activa a la persona que parla. Es pot tenir el pensament onsevulla, però s'ha de causar la sensació de presència i d'adhesió a la persona que parla. Això darrer és bastant senzill: consisteix a mantenir una certa vivacitat en els ulls, mirar d'una manera tendra i amatent i fer, mentrestant, amb el cap, els moviments d'assentiment paral•lels a les coses que l'altre persona va formulant. També és molt útil dir, de tant en tant: “¿Vol fer el favor de repetir el que deia fa un moment? ¿Tindria l'amabilitat d'aclarir-me el concepte a què al•ludia fa un instant?” Els homes volen ésser escoltats. És el que els agrada més. Els agrada més que els diners, que les dones i que menjar i beure bé. Un home escoltat esdevé un fatxenda absolutament feliç. Ara bé: quan els homes se senten escoltats, es tornen febles. Aquests moments de feblesa són l'única escletxa a través de la qual pot caure una gota de generositat del granit humà. És d'aquests moments que un pobre pot aprofitar-se. Si no els sap crear ni treure'n un profit, malament... El sistema de la parasitologia establert naturalment entre els homes, i entre els homes i les dones, es basa en l'adulació -en el gust físic que dóna el fet de sentir-se adulat-, i la forma més activa i dissimulada (és a dir, més eterna) de l'adulació és saber escoltar d'una manera natural, activa i discreta. Contribueix molt a arribar a aquesta naturalitat no cometre l'atzagaiada d'aparentar el que hom sap realment. Els propis coneixements -si és que hom en té algun- s'han de saber dissimular en el seu punt- sense caure, però, en l'extrem d'accentuar massa la pròpia estupidesa. "

Agora em galego:

Escutar faz parte da estratégia dos necessitados. Não quero dizer que se deva escutar a qualquer homem. Deve escutar-se a quem convém. Isso si, há de escutar-se bem ou quando menos causar a impressão de que escutamos bem. Temos que produzir a impressão de uma adesão activa à pessoa que está a falar. Podemos ter nosso pensamento não importa onde, pêro cumpre causar a sensação de presença e de adesão à pessoa que fala. Isso em principio é assaz simples: Consiste em manter uma certa animação nos olhos, mirar de uma maneira mole e diligente e fazer, entrementes, com a cabeça, acenos de aquiescência paralelos às coisas que a outra pessoa vai expondo. É muito útil, também, dizer, de quando em vez: Faça o favor de repetir o que você dizia há um bocado? Teria a amabilidade de aclarar-me o conceito ao que aludia há pouco? Os homens querem ser escutados. É do que mais gostam. Gostam disso mais que do dinheiro, das mulheres e de jantar e beber bem. A um homem escutado vê-se-lhe um semblante absolutamente feliz. Porém, quando os homens se sentem escutados, tornam-se frouxos. Estes momentos de fraqueza são a única fenda através da qual pode cair uma pinga de generosidade do granito humano. É destes momentos que um pobre pode tirar proveito. Se não sabe criar ou obter um beneficio deles, dificilmente ... O sistema de parasitologia estabelecido naturalmente entre os homens, e entre os homens e as mulheres, assenta-se na adulação – no prazer físico que depara sentir-se adulado - , e a forma mais activa e dissimulada (é dizer, mais eterna) da adulação é saber escutar de uma maneira natural, activa e discreta. Contribui muito a chegar a esta naturalidade não cometer a insensatez de aparentar o que se sabe realmente. Os mesmos conhecimentos, se tem algum, há de saber dissimula-los no seu justo ponto, sem cair no extremo de acentuar demasiado a própria estupidez.

Josep Pla

Isto que diz Pla vi-lo eu posto em prática com muita competência um dia que meu tio Lisardo, aborrecido do longuíssimo relato de umas liortas familiares com que uma amiga o fatigava, desligou dissimuladamente o aparelho que lhe ajudava a vencer a hipoacusia que sofria. Eu o via menear a cabeça e os olhos compassadamente à litania de palavras queixosas proferida por aquela incontornável mulher que falava mais do que uma rádio. Assentia ou negava no momento exacto com admirável precisão. Eu perguntava-me se não estaria a lhe ler os lábios, mas isso não podia ser porque a maior parte do tempo a passava a fitar o partido de futebol na televisão ou para a gente que entrava e saía do Casino, e somente de vez em quando olhava para ela. É possível que sentisse no peito as inflexões angustiadas de aquela voz de mulher, que as ondas de som lhe chegassem ao corpo e lhe subissem pelos braços até bater na caixa torácica como o tremor duma percussão emudecida.

Com os seus superiores Lisardo era um artista. Fazia-lhes toda casta de cumprimentos, desde os mais simples até os mais sofisticados pela sua dissimulação e subtileza. Estes últimos gostava de administra-los com dosificador, de jeito que a medicina entrasse na veia devagar. Seu efeito se não devia advertir até depois de um lapso de tempo ajuizado, a fim de que o recipiendário já não lembrasse quem lhe tinha administrado a poção. Lisardo gabava-se da destreza que adquirira na arte de fazer felizes aos seus chefes. Mas não sejam mal pensados, era o homem mais desinteressado do mundo. Sempre tinha bons conselhos para todos e o trepar na empresa nunca lhe quitou o repouso. Procurava afagar a todos por igual, além de seu status social, sua ideologia ou suas teimas.

Por outro lado, não se importava muito com o que os demais pensassem ou dissessem dele, não temia as maledicências, ainda que alguma vez sofreu por culpa delas. Por isso, tinha um carácter confiado e risonho nas suas relações com os demais. Levava em brincadeira muitas coisas que outros tomavam a serio. Gostava de pronunciar mal as palavras diante de estranhos, trocando-lhe as vogais ou as consoantes, só para lhes ver o assombro no semblante. Assim, podia dizer em alta voz: – Chamam-me ao “talífano”, em seguida regresso. Quando lhe falavam de política ou religião, tentava não contrariar seu interlocutor, excepto naqueles casos em que seria visível demais sua insinceridade. Porém, a estupidez excessiva fartava-o em seguida e, a causa dessa impaciência, podia pôr ponto final a uma conversa de jeito pouco delicado.

Quando eu lhe indicar que Shakespeare e outros grandes autores tinham reprovado de jeito obsessivo a hipocrisia, ele retorquia-me que não havia para tanto, que o pretenso “pecado” não era tal. Antes fazia parte, na sua opinião, da natureza ambígua da língua num contexto de perene conflito, e isto era certo não só no mundo dos homens, senão também a respeito da comunicação animal. Pedia-me ainda que não esquecera que é próprio da inteligência humana saber produzir e interpretar a linguagem figurada. Lisardo então lembrava-me a frase aquela que escrevera Yourcenar na suas “Memórias de Hadriano”: “Exagerais muito a hipocrisia dos homens, a maior parte deles pensa muito pouco como para pensar duas vezes.”

Meu querido tio era ateu por temporadas, e, em consequência, nem sempre creia numa ordem superior que justificasse o mal deste mundo. Afeiçoado a arboricultura, tinha no jardim do seu prédio limoeiros, figueiras e eu nem sei dizer quantas espécies mais. Até pouco antes de sua morte não era infrequente surpreende-lo subido a uma dessas suas árvores. Esticado em engraçado balanço, como um Ícaro trás o sol de poente, abalava as galhas emprenhes da cima, lá onde os frutos pareciam lapas do incêndio vesperal. Era-che uma macieira bem boa a que plantara meu avô quando ele nasceu. Mas os anos não perdoam a nenhum ser vivo. Quem havia de imaginar que seria precisamente dessa árvore que o velho tio ia cair e rachar a cadeira? Não se recuperaria daquela queda e ao pouco tempo deixar-nos-ia para sempre.



Aí vai a letra deste lindo tema de Maria del Mar Bonet:

Jo no sé com has guardat la bellesa entre l'infern
ni com vas poder fugir de l'horror que t'ha esquinçat
Quan et llepo les ferides veig al fons el teu esguard
el que no puc esborrar: que hem nascut en mons apart.

Més enllà dels oceans, més enllà del crit del mar
on la pluja té l'arrel beneïda per Alà
on la llum cau dels estels, sobre un món empolsegat
s'han trobat els nostres cors, en un pont que hem aixecat.

En aquest temps que ens ha tocat
no serveix la veritat
fem un temps per el nostre amor
ple de vida, entre la mort.

Acompanyem els estels
el camí que hem inventat
el teu cor amb el meu cor
per damunt dels mons apart.

Amb la sang i la foscor que hem après a tuejar
no tenim altre moment, no l'hem pogut triar
la tristesa de la mort, dels nostres mons separats
però que doni el nostre amor, tot allò que pot donar,

Tot allò que pot donar…

30.6.07

Bem-vindos a frangulhas

Há já um tempo que me ronda a ideia de encetar um blog na língua do país. Desde sempre acreditei na inviabilidade dum galego que se não achegasse ao português tanto na ortografia quanto em todos os demais aspectos. Como dizia o professor José Paz de Ourense, a ortografia e um traje que a língua veste. Por isso, para uma língua ser apreçada, cumpre-lhe ser vestida com boas telas e não com farrapos. Desafortunadamente, a normativa oficial é uma trapalhada decalcada do espanhol.

Um blog sempre tem um componente pessoal, qualquer coisa de íntimo ou de confissão, ainda que seu carácter público o afasta dos antigos diários que levavam em segredo nossos velhos. Escrever um caderno é um modo de se não perder no caminho; faze-lo em galego uma afirmação da própria cultura e identidade. Contudo, exige um esforço adicional quando um foi educado em castelhano. Não é singelo aprender a escrever correctamente no idioma no que não sempre se fala, sobretudo em um contexto social diglóssico e com fortes preconceitos a respeito do galego por causa de seu carácter de língua camponesa e marinheira. Nossas elites preferem falar em castelhano. É por isso que o galego de aquém Minho está em perigo. Tentemos ajudar a seu renascimento ainda que a nossa contribuição não seja mais do que uma pinga no mar.