Noutros tempos os críticos eram os interpretes qualificados que nos guiavam nas nossas escolhas e preferências em matéria de cinema, literatura, música e arte. Uma película de Arthur Penn ou de Rossellini não era o mesmo que uma outra produção comercial qualquer, não para os que prestávamos atenção. Uma novela de John Dos Passos ou de Thomas Pynchon chegava a nós por recomendação dos especialistas, já fossem críticos ou professores.
Hoje os críticos famosos doutros tempos estão a desaparecer sem remédio dos grandes jornais do mundo, tornam-se irrelevantes, seu trabalho perde importância. Estou a falar, naturalmente, daqueles que levaram essa profissão a um degrau elevado de competência e de autoridade, reconhecida alem das fronteiras ideológicas. Internet tem muito a ver com isto. Os grandes monstros da comunicação não podem competir neste novo médio democrático que é a rede. Muitos bloggers têm uma grande capacidade de influir na opinião pública em âmbitos como o da música, o arte, a televisão, o teatro etc. Predomina o consenso da comunidade de internautas sobre a opinião especializada, não há mais que ver os sites das livrarias on-line, como Amazon. A opinião do críticos profissionais é muito suspeitosa. E não faltam motivos para esta desconfiança, ao contrário, acho que sobram.
Para uma geração que aprendeu a nadar no mar de internet e que respira por brânquias digitais, o tradicional crítico dum jornal não significa nada, mesmo suas opiniões podem ser-lhe tóxicas. Por outro lado, quem pode duvidar que a hipertrofia da comercialização nesta profissão é uma das causas do seu desprestígio?
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23.4.08
1.11.07
Brando e Bertolucci

Quando apôs de muitos anos o Brando e o Bertolucci se reencontraram numa festa, este disse-lhe àquele: “Consegui tirar-te a máscara, não é?” A resposta chegou com um riso pequeno: "Tu em verdade crês que eu era o sujeito aquele?" Paul, o personagem da fita, é um jornalista americano farto de tudo –lutara nas guerrilhas, conhecia o mundo...–; ele vivera seu tempo de jeito comprido e intenso, mas portava um grande fardo de desassossego pelo suicídio de sua esposa.
Marlon interpretou o papel com uma grande liberdade. Bertolucci deixara-lhe independência para actuar, depois de lhe explicar a ideia geral do filme. Decorria o ano 73 e as cenas amorosas escandalizaram meio mundo. Como era de esperar, o filme foi censurado pelo seu contido excessivamente explícito. O actor, de 48 anos, e a jovem Maria Schneider passaram uns dias juntos para conhecer-se antes da rodagem naquele Paris ainda comovido pelo tremor das revoluções estudantis.
Bertolucci sempre quisera levar ao cinema uma sua fantasia: um homem maduro conhece uma mulher nova num apartamento vazio e fazem o amor sem apenas cambiar palavras. Quando esse relacionamento se prolonga no tempo, termina por tomar um carácter sadomasoquista.
Brando não era um actor qualquer: seu talento ultrapassava o da maioria dos artistas actuais. Seu sentido da justiça e seu compromisso humano e político evidenciou-se em películas e em atitudes, como a de recusar-se a receber o premio da academia pela sua interpretação de Vitto Corleone. O motivo era a difamação dos aborígenes americanos no cinema de Hollywood.
Depois daquele último tango em Paris, Brando havia de iniciar um caminho de autodestruição e aniquilamento da própria imagem. Afastar-se-ia do cinema, ao que só retornaria por quartos, quando os trágicos problemas dos filhos o obrigaram.
A pergunta ainda fica incontestada: Quem era, de todos os personagens que interpretou, o Marlon Brando?
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