14.11.07

Inspiração das ruas



"Este é um pequeno espaço reservado à expressão artística sob a forma de Stencil, criado por um grupo de terroristas, que brevemente irá semear o pânico na tua cidade, no teu bairro... Agimos sob a liberdade da nossa inspiração para que as paredes das ruas das nossas cidades se transformem em algo mais do que o marasmo do betão armado, para que cada indivíduo sinta perplexidade, experimente por segundos o impacto da surpresa ou que, acima de tudo, e a partir daquele momento, se complete com inspiração. É a celebração da Arte Urbana."

Tirado da sua web

1.11.07

Brando e Bertolucci



Quando apôs de muitos anos o Brando e o Bertolucci se reencontraram numa festa, este disse-lhe àquele: “Consegui tirar-te a máscara, não é?” A resposta chegou com um riso pequeno: "Tu em verdade crês que eu era o sujeito aquele?" Paul, o personagem da fita, é um jornalista americano farto de tudo –lutara nas guerrilhas, conhecia o mundo...–; ele vivera seu tempo de jeito comprido e intenso, mas portava um grande fardo de desassossego pelo suicídio de sua esposa.

Marlon interpretou o papel com uma grande liberdade. Bertolucci deixara-lhe independência para actuar, depois de lhe explicar a ideia geral do filme. Decorria o ano 73 e as cenas amorosas escandalizaram meio mundo. Como era de esperar, o filme foi censurado pelo seu contido excessivamente explícito. O actor, de 48 anos, e a jovem Maria Schneider passaram uns dias juntos para conhecer-se antes da rodagem naquele Paris ainda comovido pelo tremor das revoluções estudantis.

Bertolucci sempre quisera levar ao cinema uma sua fantasia: um homem maduro conhece uma mulher nova num apartamento vazio e fazem o amor sem apenas cambiar palavras. Quando esse relacionamento se prolonga no tempo, termina por tomar um carácter sadomasoquista.

Brando não era um actor qualquer: seu talento ultrapassava o da maioria dos artistas actuais. Seu sentido da justiça e seu compromisso humano e político evidenciou-se em películas e em atitudes, como a de recusar-se a receber o premio da academia pela sua interpretação de Vitto Corleone. O motivo era a difamação dos aborígenes americanos no cinema de Hollywood.

Depois daquele último tango em Paris, Brando havia de iniciar um caminho de autodestruição e aniquilamento da própria imagem. Afastar-se-ia do cinema, ao que só retornaria por quartos, quando os trágicos problemas dos filhos o obrigaram.

A pergunta ainda fica incontestada: Quem era, de todos os personagens que interpretou, o Marlon Brando?

27.10.07

As Catedrais e Barreiros









A semana passada, mais uma vez encaminhamos para a Pontenova. Desde ali, percorremos o vale do Eo até sua desembocadura no mar, a rentes das vilas de Castropol, Vegadeo e Ribadeo. Esse mesmo dia os presidentes de Galiza e Astúrias reuniam-se no meio da ria para celebrar a criação da Reserva da Biosfera do Eo-Navia. Depois de visitar o centro de Rivadeo, fomos a praia das Catedrais. Como já estivéramos nela não há muito, caminhamos até a praia de Barreiros, ali perto. Chegamos as dois e meia e dispusemos jantar antes de nada: arroz com marisco foi a escolha. Depois da caminhada até Barreiros, descemos a areia das Catedrais para vaguear entre os famosíssimos arcos, mas a maré estava mudando e havia muita gente para desfrutar descansadamente do lugar. Levávamos uma bola de plástico e isso permitiu-nos jogarmos um partidinho. Por volta das seis colhemos rumo a Mondonhedo, para ver um pouco das São Lucas. A rua dos postos de venda de produtos artesanais era um universo de pessoas vindas de toda parte. Essa noite actuava Luar na Lubre. O vale e a vila, que o escritor Cunqueiro, aqui nado, tão bem descreveu, pagam a pena da viagem de uma hora e pouco desde Lugo. A catedral tem umas pinturas góticas esplêndidas, que formam um conjunto valiosíssimo e são um exemplo único no seu estilo. As que podem ser olhadas nos muros laterais representam a matança dos santos inocentes ordenada por Herodes. Aqueles foram assassinados pelos soldados do rei, deitando seu sangue num baptismo horrível. Por Jesus é que eles morreram sem que suas mães nada puderam fazer para evitarem esse sucesso de inacreditável crueldade. As espadas dilaceram a gorja dos meninos e o sangue caldo e vermelho sai a cachões, regando o aceiro e tingindo a terra junto com o doce leite dos peitos ainda despidos e as báguas abrasadoras que escorregam dos olhos desmedidamente abertos e apavorados. Infeliz história renovada em aquelas terras até o dia de hoje. O poder espavorido trucida os desamparados. Fácil é conceber que esta bela representação gráfica tinha o propósito de reviver no coração dos fieis, durante centos de anos por vir, o drama daquele holocausto inaugural, pressagio do sacrifício do cordeiro. Regressamos por Vilalba com ganhas de visitar novamente a formosa vila de Mondonhedo enquanto for possível.

18.10.07

Viagem a Taramundi













Antes de chegar a Taramundi, passamos pola Pontenova. Aproveitamos para ver os fornos onde se fundia o ferro das minas próximas. Desde aqui enviava-se por caminho-de-ferro a Rivadeo, e dali a Europa.
Partindo de Teixo, perto de Taramundi, começamos a trepada ao alto de Ouroso. O percorrido é de 8 quilómetros. Em Teixo há um albergaria municipal em um edifício das velhas escolas. A caminhada transcorre entre brejos, pinheirais e pastarias. Na vizinhança de uma pequena laguna vivem cativos muitos cavalos semi-selvagens, de quantas cores e pelagens se queira; assusto-me ao ouvir o ruído que vem de entre os pinhais. Depois, com alivio, sinto-os bufar e rinchar. Ao chegar a estrada que vai desde o Couso até o porto da Garganta a paisagem abre-se em uma esplêndida panorâmica que abrange os curutos dos Ancares leoneses, a localidade da Fonsagrada, grande parte da Marinha lucense e a comarca dos Oscos, cujas montanhas são redondas como peitos de mulher. Os nossos amigos asturianos têm uma melhor politica turística. Não há mais que ver as estradas a um lado e outro da raia. As casas tradicionais também estão muito melhor cuidadas, sem aditamentos espectaculares de alumínio e outros materiais alheios ao espírito da região. Os roteiros estão bem sinalizados e na oficina de informação podem encontrar-se brochuras informativas sobre a história e as características da comarca. A volta escutamos Mariza, nova rainha moçambicana do fado e beleza deslumbrante, e também nossa admiradíssima Chabuca Granda, bela peruana que empeçou sua carreira cantando-lhe à Lima do seu pai, a da Alameda e a Ponte de Pau, a das mansões francesas do bairro do Barranco, e terminou-a resgatando os ritmos afro-peruanos do Rimac, menosprezados pola boa sociedade limenha.

15.10.07

O nabo e o cavalo

Uma vez um homem recolheu um nabo muito grande, e foi-lho levar ao amo do povo, e o senhor deu-lhe três moedas de ouro. Então um homem que tinha um bom cavalo, disse para si:
– Se àquele deu-lhe três moedas de ouro, a mim, que lhe levo um cavalo, dar-me-á muito mais.
Quando chegou o homem à porta do castelo, disse o senhor:
– ¡Ai, meu Deus, que cavalo!, ¿quanto queres por ele?
– Não lho vendo, senhor, eu dou-lho de boa vontade.
– Nada, eu tenho que dar algo mais, e, como não tenho quartos, dar-te-ei este nabo.
E deu-lhe o nabo do outro. E, quando o homem chegou ao povo, por pouco mais mata ao outro.

Neste conto popular recolhido na província de Lugo, o que primeiro chama a atenção é a presença do amo do povo. Na época feudal isto seria o mais comum. Mas desde aqueles dias já choveu, e por isso não é provável que o breve relato nascesse daquela. Pode ser que a historia nos reenvie a tempos mais recentes, quando os fidalgos ocuparam o posto da grande nobreza absentista que morava em Madrid. O tubérculo da planta crucífera aponta claramente a província de Lugo, onde este cultivo servia com muito proveito, e serve, ainda que não exclusivamente, para o mantimento do gado, pêro também é possível que este elemento seja substituído noutros âmbitos geográficos. O que convida a reflexão nesta narração é o metal dourado das moedas do senhor. Sabemos que desde tempos imemoriais o ouro é usado como médio de intercâmbio e poupança. Também tem usos mais subtis e menos vulgares, como o de excitar a imaginação dos homens, que gostam de fazê-lo formar parte principal dos seu sonhos. Como recusar-se a acreditar nesta última asserção quando comprovamos o facto de ele estar presente nas mais variadas lendas do folclore da Europa e da Galiza. Quem não conhece neste pais uma lenda fantástica de tesouros de mouros enterrados ou mergulhados? A mim lembra-me à bolha imobiliária que tem impelido a economia nos últimos anos. No nosso pais não tem acontecido ainda a parte da troca do nabo pelo ruço.

9.10.07

Festa



O polvo é um dos pratos típicos destas festas de Outono. Mesmo assim eu continuo a preferir a carne ao caldeiro, especialmente como a amanhavam no Carvalhinho e noutras vilas de Ourense. Não quero dizer que naquela província se jante melhor do que aqui, não sou tão chauvinista: devo reconhecer que uma das mais agradáveis surpresas que levei em Lugo foi a da hospitalar costume das formidáveis tapas que se servem em todos os bares da cidade. Um outro hábito que já não me pareceu tão encantador foi o de os motoristas não respeitarem as faixas zebradas. Ainda que um transeunte caminhe de mãos dadas com crianças, o chofer com certeza recusara-se a parar. Se alguém ousa cruzar, o melhor que lhe pode acontecer é que o automóvel o evite, sem diminuir a velocidade: é preciso compreender que estão muito apressados.
Hoje vi aos lenhadores bascos trabalhar arreio na praça do seminário, dentro do programa de festejos.