Hoje pela manhã erguemo-nos cedo, as ruas estavam molhadas. Dizem que vai chover durante três dias. Falta fazia. Vejo a S. penteando-se diante do espelho quando passo pela porta do seu quarto e me saúda em voz baixa. Ontem, quando a mãe lhe disse que fosse a arranjar o cabelo, que tinha a franja em pé, não se lhe ocorreu outra coisa que pegar numas tesouras e cortar o tufo de pêlos insubordinados. Lá ficou o cabelo da minha nena, no chão do banheiro. Depois no Bianco, o barman disse que era estranho que o rapaz se parecesse a mãe enquanto a filha parecia-se a mim. Preparou-nos um batido de chocolate que estava boníssimo, mas um bocado forte. Mais tarde teve acidez. Não ceei nada para não agravar o mal.
Apôs ir às compras, saí caminhar e dirigi os meus passos cara à faculdade de veterinária. Sabia que lá se podia ver uma mostra de fotografia que tinha por nome Olhadas na Lusofonia. As fotos eram de Sebastião Salgado, Meléndrez, Villarino, Rosminho,... Fotógrafos de Cabo Verde, Timor, Moçambique, Brasil, Galiza, Portugal,... Gosto muito do prédio da faculdade e como se ajusta ao terreno, com suas deleitosas encostas cobertas de erva e de plantas de jardim que se aconchegam a lagos de agua cristalina. Lousas escuras me guiam silandeiramente sob a sombra das carvalheiras até um anfiteatro no que bem se podiam representar as obras mestras do teatro clássico como se for o de Dionísio em Atenas.. Pode que algum dia lhe tire umas fotos.
1.12.07
14.11.07
Inspiração das ruas

"Este é um pequeno espaço reservado à expressão artística sob a forma de Stencil, criado por um grupo de terroristas, que brevemente irá semear o pânico na tua cidade, no teu bairro... Agimos sob a liberdade da nossa inspiração para que as paredes das ruas das nossas cidades se transformem em algo mais do que o marasmo do betão armado, para que cada indivíduo sinta perplexidade, experimente por segundos o impacto da surpresa ou que, acima de tudo, e a partir daquele momento, se complete com inspiração. É a celebração da Arte Urbana."
Tirado da sua web
1.11.07
Brando e Bertolucci

Quando apôs de muitos anos o Brando e o Bertolucci se reencontraram numa festa, este disse-lhe àquele: “Consegui tirar-te a máscara, não é?” A resposta chegou com um riso pequeno: "Tu em verdade crês que eu era o sujeito aquele?" Paul, o personagem da fita, é um jornalista americano farto de tudo –lutara nas guerrilhas, conhecia o mundo...–; ele vivera seu tempo de jeito comprido e intenso, mas portava um grande fardo de desassossego pelo suicídio de sua esposa.
Marlon interpretou o papel com uma grande liberdade. Bertolucci deixara-lhe independência para actuar, depois de lhe explicar a ideia geral do filme. Decorria o ano 73 e as cenas amorosas escandalizaram meio mundo. Como era de esperar, o filme foi censurado pelo seu contido excessivamente explícito. O actor, de 48 anos, e a jovem Maria Schneider passaram uns dias juntos para conhecer-se antes da rodagem naquele Paris ainda comovido pelo tremor das revoluções estudantis.
Bertolucci sempre quisera levar ao cinema uma sua fantasia: um homem maduro conhece uma mulher nova num apartamento vazio e fazem o amor sem apenas cambiar palavras. Quando esse relacionamento se prolonga no tempo, termina por tomar um carácter sadomasoquista.
Brando não era um actor qualquer: seu talento ultrapassava o da maioria dos artistas actuais. Seu sentido da justiça e seu compromisso humano e político evidenciou-se em películas e em atitudes, como a de recusar-se a receber o premio da academia pela sua interpretação de Vitto Corleone. O motivo era a difamação dos aborígenes americanos no cinema de Hollywood.
Depois daquele último tango em Paris, Brando havia de iniciar um caminho de autodestruição e aniquilamento da própria imagem. Afastar-se-ia do cinema, ao que só retornaria por quartos, quando os trágicos problemas dos filhos o obrigaram.
A pergunta ainda fica incontestada: Quem era, de todos os personagens que interpretou, o Marlon Brando?
30.10.07
27.10.07
As Catedrais e Barreiros
A semana passada, mais uma vez encaminhamos para a Pontenova. Desde ali, percorremos o vale do Eo até sua desembocadura no mar, a rentes das vilas de Castropol, Vegadeo e Ribadeo. Esse mesmo dia os presidentes de Galiza e Astúrias reuniam-se no meio da ria para celebrar a criação da Reserva da Biosfera do Eo-Navia. Depois de visitar o centro de Rivadeo, fomos a praia das Catedrais. Como já estivéramos nela não há muito, caminhamos até a praia de Barreiros, ali perto. Chegamos as dois e meia e dispusemos jantar antes de nada: arroz com marisco foi a escolha. Depois da caminhada até Barreiros, descemos a areia das Catedrais para vaguear entre os famosíssimos arcos, mas a maré estava mudando e havia muita gente para desfrutar descansadamente do lugar. Levávamos uma bola de plástico e isso permitiu-nos jogarmos um partidinho. Por volta das seis colhemos rumo a Mondonhedo, para ver um pouco das São Lucas. A rua dos postos de venda de produtos artesanais era um universo de pessoas vindas de toda parte. Essa noite actuava Luar na Lubre. O vale e a vila, que o escritor Cunqueiro, aqui nado, tão bem descreveu, pagam a pena da viagem de uma hora e pouco desde Lugo. A catedral tem umas pinturas góticas esplêndidas, que formam um conjunto valiosíssimo e são um exemplo único no seu estilo. As que podem ser olhadas nos muros laterais representam a matança dos santos inocentes ordenada por Herodes. Aqueles foram assassinados pelos soldados do rei, deitando seu sangue num baptismo horrível. Por Jesus é que eles morreram sem que suas mães nada puderam fazer para evitarem esse sucesso de inacreditável crueldade. As espadas dilaceram a gorja dos meninos e o sangue caldo e vermelho sai a cachões, regando o aceiro e tingindo a terra junto com o doce leite dos peitos ainda despidos e as báguas abrasadoras que escorregam dos olhos desmedidamente abertos e apavorados. Infeliz história renovada em aquelas terras até o dia de hoje. O poder espavorido trucida os desamparados. Fácil é conceber que esta bela representação gráfica tinha o propósito de reviver no coração dos fieis, durante centos de anos por vir, o drama daquele holocausto inaugural, pressagio do sacrifício do cordeiro. Regressamos por Vilalba com ganhas de visitar novamente a formosa vila de Mondonhedo enquanto for possível.
18.10.07
Viagem a Taramundi
Antes de chegar a Taramundi, passamos pola Pontenova. Aproveitamos para ver os fornos onde se fundia o ferro das minas próximas. Desde aqui enviava-se por caminho-de-ferro a Rivadeo, e dali a Europa.
Partindo de Teixo, perto de Taramundi, começamos a trepada ao alto de Ouroso. O percorrido é de 8 quilómetros. Em Teixo há um albergaria municipal em um edifício das velhas escolas. A caminhada transcorre entre brejos, pinheirais e pastarias. Na vizinhança de uma pequena laguna vivem cativos muitos cavalos semi-selvagens, de quantas cores e pelagens se queira; assusto-me ao ouvir o ruído que vem de entre os pinhais. Depois, com alivio, sinto-os bufar e rinchar. Ao chegar a estrada que vai desde o Couso até o porto da Garganta a paisagem abre-se em uma esplêndida panorâmica que abrange os curutos dos Ancares leoneses, a localidade da Fonsagrada, grande parte da Marinha lucense e a comarca dos Oscos, cujas montanhas são redondas como peitos de mulher. Os nossos amigos asturianos têm uma melhor politica turística. Não há mais que ver as estradas a um lado e outro da raia. As casas tradicionais também estão muito melhor cuidadas, sem aditamentos espectaculares de alumínio e outros materiais alheios ao espírito da região. Os roteiros estão bem sinalizados e na oficina de informação podem encontrar-se brochuras informativas sobre a história e as características da comarca. A volta escutamos Mariza, nova rainha moçambicana do fado e beleza deslumbrante, e também nossa admiradíssima Chabuca Granda, bela peruana que empeçou sua carreira cantando-lhe à Lima do seu pai, a da Alameda e a Ponte de Pau, a das mansões francesas do bairro do Barranco, e terminou-a resgatando os ritmos afro-peruanos do Rimac, menosprezados pola boa sociedade limenha.
15.10.07
O nabo e o cavalo
Uma vez um homem recolheu um nabo muito grande, e foi-lho levar ao amo do povo, e o senhor deu-lhe três moedas de ouro. Então um homem que tinha um bom cavalo, disse para si:
– Se àquele deu-lhe três moedas de ouro, a mim, que lhe levo um cavalo, dar-me-á muito mais.
Quando chegou o homem à porta do castelo, disse o senhor:
– ¡Ai, meu Deus, que cavalo!, ¿quanto queres por ele?
– Não lho vendo, senhor, eu dou-lho de boa vontade.
– Nada, eu tenho que dar algo mais, e, como não tenho quartos, dar-te-ei este nabo.
E deu-lhe o nabo do outro. E, quando o homem chegou ao povo, por pouco mais mata ao outro.
Neste conto popular recolhido na província de Lugo, o que primeiro chama a atenção é a presença do amo do povo. Na época feudal isto seria o mais comum. Mas desde aqueles dias já choveu, e por isso não é provável que o breve relato nascesse daquela. Pode ser que a historia nos reenvie a tempos mais recentes, quando os fidalgos ocuparam o posto da grande nobreza absentista que morava em Madrid. O tubérculo da planta crucífera aponta claramente a província de Lugo, onde este cultivo servia com muito proveito, e serve, ainda que não exclusivamente, para o mantimento do gado, pêro também é possível que este elemento seja substituído noutros âmbitos geográficos. O que convida a reflexão nesta narração é o metal dourado das moedas do senhor. Sabemos que desde tempos imemoriais o ouro é usado como médio de intercâmbio e poupança. Também tem usos mais subtis e menos vulgares, como o de excitar a imaginação dos homens, que gostam de fazê-lo formar parte principal dos seu sonhos. Como recusar-se a acreditar nesta última asserção quando comprovamos o facto de ele estar presente nas mais variadas lendas do folclore da Europa e da Galiza. Quem não conhece neste pais uma lenda fantástica de tesouros de mouros enterrados ou mergulhados? A mim lembra-me à bolha imobiliária que tem impelido a economia nos últimos anos. No nosso pais não tem acontecido ainda a parte da troca do nabo pelo ruço.
– Se àquele deu-lhe três moedas de ouro, a mim, que lhe levo um cavalo, dar-me-á muito mais.
Quando chegou o homem à porta do castelo, disse o senhor:
– ¡Ai, meu Deus, que cavalo!, ¿quanto queres por ele?
– Não lho vendo, senhor, eu dou-lho de boa vontade.
– Nada, eu tenho que dar algo mais, e, como não tenho quartos, dar-te-ei este nabo.
E deu-lhe o nabo do outro. E, quando o homem chegou ao povo, por pouco mais mata ao outro.
Neste conto popular recolhido na província de Lugo, o que primeiro chama a atenção é a presença do amo do povo. Na época feudal isto seria o mais comum. Mas desde aqueles dias já choveu, e por isso não é provável que o breve relato nascesse daquela. Pode ser que a historia nos reenvie a tempos mais recentes, quando os fidalgos ocuparam o posto da grande nobreza absentista que morava em Madrid. O tubérculo da planta crucífera aponta claramente a província de Lugo, onde este cultivo servia com muito proveito, e serve, ainda que não exclusivamente, para o mantimento do gado, pêro também é possível que este elemento seja substituído noutros âmbitos geográficos. O que convida a reflexão nesta narração é o metal dourado das moedas do senhor. Sabemos que desde tempos imemoriais o ouro é usado como médio de intercâmbio e poupança. Também tem usos mais subtis e menos vulgares, como o de excitar a imaginação dos homens, que gostam de fazê-lo formar parte principal dos seu sonhos. Como recusar-se a acreditar nesta última asserção quando comprovamos o facto de ele estar presente nas mais variadas lendas do folclore da Europa e da Galiza. Quem não conhece neste pais uma lenda fantástica de tesouros de mouros enterrados ou mergulhados? A mim lembra-me à bolha imobiliária que tem impelido a economia nos últimos anos. No nosso pais não tem acontecido ainda a parte da troca do nabo pelo ruço.
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